O natal de Lady Alice

Eu sempre sei quando é natal.

Não é preciso ser demasiado inteligente, ou demasiado humano (que humano que é muito humano hoje em dia, né?) pra saber quando o natal chega. Os pássaros, os cachorros, os postes, os prédios, as árvores, todos eles sabem quando chegam os ares natalinos. A gente não precisa de calendário, tampouco dessa coisa de estar preso na cadeia das horas. A gente simplesmente sente. Sentimos que o ar está diferente, está leve, está confortável, está com cheiro de abrigo e com uma atmosfera fraterna que chega a dar vertigem.

Não é difícil ver a mudança do cenário quando o natal chega. Ao subir nos telhados dos vizinhos, vê-se um bocado de luzinhas coloridas a brilhar e piscam piscam piscam e fazem meus olhos brilharem também. E da janela das casas alheias, gente ao redor de árvores que tem bolinhas coloridas e eles riem e sorriem muito, enquanto as moças na cozinha preparando umas coisas que atraem meu nariz pro alto.

É engraçado, mas vejo mudança no céu também. Deito no telhado da Tia Fernanda e posso ver as estrelas formando um sorriso prateado. Acho estranho, e ai um olho feito por outras cinco estrelas, pisca pra mim.

Parece papo de louco – ou papo de gato. Mas eu gosto. Me dá umas coisas no estomago, umas coisas boas.

Todavia, o que eu mais gosto é a alegria que Anny traz pra casa. E ela pula, e dança e ri e abraça e me beija e me sufoca e tenho que gritar para que me solte.

“Está amassando meu pelos! Acabei de lavá-los”

“Desculpe! Desculpe! Desculpe! Desculpe! (x100)”

E tudo fica bem de novo. Meu espírito natalino é bem aguçado. Por mais que eu seja uma Rainha, e Rainhas têm de manter etiqueta e não serem ternas e esbanjar amor gratuitamente, fiquei bastante sensível nesse meu 3º natal. Eu vi na tevê que, nesta data, presenteia-se as pessoas que temos apreço como forma de agradecimento pelo companheirismo, amor e blá blá blá. Tive a brilhante e empática ideia de presentear meus queridos pra mostrar como gosto deles só em datas comemorativas. Na madrugada do dia 23 de dezembro, estava eu no telhado de Lúcia pensando o que daria para Anny de natal. Até que ouvi uma cigarra muito simpática e afinada cantando na varanda da casa do Seu Esnar. Ai pensei comigo: bom, já que Anny gosta tanto de música, ela há de adorar essa coisa que canta. Não deu outra! Era esse o presente. Perfeito! Não deu tempo de por nenhum lacinho ou um embrulho de reninhas, pois era aquela famosa “lembrancinha” que os tios mão-de-vaca costumam dar. Mas era de coração. Peguei o bicho com a boca e fui excitadíssima pra casa pra entregar o melhor presente que Anny jamais ganharia.Quando cheguei, ela estava no 5° sono. Toda esparramada na cama e o que iluminava por parcelas o quarto era o pisca-pisca que moldava as prateleiras de livros. Postei-me ao lado da cama, larguei o presente em minha frente que gritava feito uma louca uma música incompreensível. Aquela cigarra era meio punk, meio trash e a barulheira fez Anny acordar. A descabelada acendeu a luz e com cara de encafifada, ficou procurando algo que não sei e repetindo seguidas vezes “Eu não acredito, Alice. Eu não acredito, Alice.”
Ué, que aquela mulher tinha? Eu toda pimposa esperando ela notar o presente e fica falando isso como se estivesse sendo visitada por um extraterrestre.

Quando a menina notou a presença da cigarra foi um alvoroço danado! Ela pulava, sapateava, parecia que estava possuída por alguma entidade.

“Eu não acredito, Alice! Você fez isso de novo!”

Mas que absurdo! Você se mata e gasta todo seu raciocínio pra pensar num presente que agrade a criatura, e assim que se é agradecido?

A cigarra, atordoada diante tanta gritaria, tentou fugir das minhas vistas e, numa patada, fiz a menina ficar.

“Fica ai, querida. Ela é assim mesmo, meio histérica. É coisa de paulista”

Não demorou pra Cássia aparecer segurando uma vassoura.

“Que tá acontecendo, menina?!”

“São Paulo não está fazendo bem pra essas mulheres” sussurrei pra cigarra debaixo da minha pata, que acenou em concordância.

“Tem um dragão aqui, mãe! Olha como essa desgraça grita!”

“Jesus Cristo de Nazaré! Veja o tamanho dessa coisa! Isso é obra do maligno, Thauany. Eu digo pra você ir pra igreja, seguir os caminhos de Deus. Viver no pecado só atrai coisa ruim. Olha só!”

“Mãe, discurso divino depois de você matar esse troço! (Uma palavra de baixo calão), esse bicho deve ser level 86!”

“Ei! Ninguém vai matar meu presente!”

Quando fui protestar contra o aniquilamento do presente, a tirana saiu debaixo da minha pata e começou a voar toda tonta pelo quarto.

Santo Noé da arca dos bichinhos! Foi um circo tremendo. A maldita da cigarra perambulando feito uma bêbada e aquelas mulheres gritando e gritando tentando banir meu presente com a vassoura, e eu ria feito pobre quando ganha na Tele Sena. E como som de fundo, Cesar roncando totalmente alheio a dramaturgia toda.

Enquanto eu tentava pegar a cigarra para que não cometessem tamanho homicídio, e enquanto Anny gritava “Você me paga, Alice!” fui lembrando toda peraltice, alegria e dissabor desde o ultimo natal. E cada vez que eu quase conseguia pegar a cigarra, recordei quantas vezes estamos prestes a conseguir algo, daí acontece alguma trama da sina e nos impede. Mas a gente tenta e tenta pegar a cigarra, até que a gente pára, e ela vem parar de baixo da nossa pata.

“Alice, sua maluca! Um dia você me mata, tinhosa!”

Ah! Entra no espírito, bem!

Feliz natal, minha querida! Feliz natal!

Tanto lugar e tinha de ser justo aqui, Alice?!

Quem tem gato em casa, sabe muito bem do dom dessas criaturinhas de se deitar justamente no livro que está lendo ou no caderno que está escrevendo. Eles parecem que sentem a demasiada atenção que estamos prestando, e fazem questão de pousar seus leves corpinhos sobre o livro/caderno. Só pode ser ciúmes e vontade de chamar atenção.

E, quando deitam, quem disse que a gente tem coragem de tira-los? Imagina!

Fica ai, amor… eu leio em outra hora.

Pequena Alice

Pequena Alice mais parece gente do que irracional. Mia quando faminta e protesta sua solidão. Sai pela janela e quando volta, com os olhos esbugalhados, chega falante comunicando as novidades.

Pequena Alice também é exigente: não acenda a luz e atinja-a com os raios da aurora, com os olhos preguiçosos, chama sua atenção por ter lhe arrancado do seu nobre sono.

Pequena Alice também gosta de lamber; lambe cá, lambe lá, suas patas, sua barriga e suas costas. Gosta também de desferir lambidas ásperas em narizes alheios e lamber os beiços em satisfação.

Mas pequena Alice não é uma criaturinha amigável; quando de mau humor mostra as unhas e lhe põe medo. Porém, pequena Alice tem seus tempos floridos; quando deita perto de sua respiração e apóia as patinhas alvas bem perto, dizendo no gesto singelo “Ei, eu estou aqui com você, viu?”.

E ainda por cima, pequena Alice pensa que é Lady; mimada, acha que é da realeza, e quer tudo feito conforme seus anseios reais, e até mesmo exige uma cadeira a mesa, e contente, lambe novamente os beiços por possuir tantos subordinados.

Todavia, pequena Alice é companheira; segue-te por todo canto, inclusive no banho, e fica de vigia em seu pedestal: o vaso sanitário. Pequena Alice também caça muito bem; moscas, baratas, ratos e até mesmo sombras. Pequena Alice, ou Alicia, tem dado cor a minha vida há três anos, e vai colori-la como um livrinho infantil por muitos anos a fio, se assim permitir o papai do céu dos animais.

Escrito em: 15 de Julho, 2010.

Lady Alice em: Os Herdeiros (part. III)

Leia antes: Lady Alice em: Os Herdeiros (part. II)

 

O tempo não perdoava.

Quanto mais noites passavam, as Alicinhas cresciam e se mexiam mais dentro de mim. Foi quando eu decidi que não dormiria mais, ai os dias não iriam escurecer e, então, nunca mais nasceria outro dia e meu bucho não cresceria mais. Mas imagine só o marasmo! Haja poker, haja novelos de lã e meias sujas que preencha o tédio.

Naturalmente, o plano não deu certo.

Minha barriga parecia uma escola de samba. Nino chamava de “Unidos da Lady Alice”. Hilário esse menino!

Ele, por sua vez, estava achando a experiência fascinante – talvez até mais do que a mim.

De inicio, esse papo de ter um monte de pivetinho correndo pelo quarto, sobretudo de ter que olhar para miniaturas daquele infame que, num ato inescrupuloso, deixou pra mim essa bagagem, me dava enjôo e um sentimento repulsivo. Mas disseram que o enjôo era coisa de grávida mesmo, e que toda essa minha vontade louca de comer um monte de coisa, é pelo time de vôlei que estava crescendo em mim.

Coitado de Nino! Sempre sobrava pra ele. Ia buscar, de madrugada, na geladeira de Dona Irá, o filé que eu estava com vontade de comer. Ele dizia ser o “pai postiço” dos que estavam por vim.

Com cara de quem não estava acreditando no que ouvia, disse:

- Está ficando retardado?!

- Ma-ma-mas Alice – retrucou Nino – eles precisam de um daddy!

- Ta de sacanagem? Precisam coisa nenhuma! Fique satisfeito sendo o tio dos mancebinhos.

Nino tinha cada idéia de jerico! A gente nasce e paga imposto pra ouvir cada coisa, senhoras e senhores.

Quanto a Anny, me tratava com todo esmero e apreço. Nas vezes que eu saia, ouvia a voz dela pela janela e sabia que o bicho ia pegar pro meu lado.

- Você tem o que na cabeça, Alice? Atum? – dizia ela, furiosa – Você está grávida, não pode sair por ai para as suas baladinhas como quando não tinha “coisinhas” ai dentro!

Foi quando descobri que ser mãe custava muito. Já pensou? Ter que ficar em casa porque tem um monte de bichinho dentro de você? Nada a ver! Eles iam se divertir também, ué! Posso apostar que todas as vezes que eu pulava um muro, eles estavam rindo e sentiam a mesma adrenalina no estomago que eu sinto.

Até que chegou um momento que começava a custar escalar parede. Eu estava oficialmente mórbida, e não agüentava correr atrás d’uma aranha.

Decidi aposentar meu reinado por uns tempos. Licença materna, disse Anny.

Ah! E Natasha, a cachorra preguiçosa e obesa, também me felicitou pelas boas novas.

- Engoliu teu ego, Alice? Por isso da barriga enorme?

E ria. Onde já se viu? Que cadela ousada!

- Volta pra tua toca, peruca de político! – gritei a ela.

O sol que entrava pela janela fazia um retângulo de raios suaves no chão do quarto. Deitada sob aquela luz de fim de tarde, com a maior majestade deste mundo, eu começava a me perguntar como aquela galera faria para sair daqui de dentro.

Eu não fazia idéia! E com tanto devaneio tentando com a minha criatividade infinita imaginar, o dia escureceu. Anny chegou e deitou-se a cama depois de me paparicar deveras. Postei-me em meu lugar de costume: ao lado do travesseiro, bem próximo de seu rosto sonolento.

Adormeci ao som da tua respiração calma.

Investida, dor, sangue.

Dor, muita dor… Que estava acontecendo?! O quarto estava tão escuro…

Cai da cama, desnorteada, tonta, confusa.

Anny?! Onde ela estava? Tua respiração calma… – Que dor! – ela estava dormindo.

Era impossível de andar; arrastava-me em buscar dum lugar seguro. Eu não sabia por que queria, mas sabia que tinha de ser e eu andava e andava pelos corredores gritando e gritando, a visão embaçada, a dor torcendo tudo dentro de mim.

- Mãe! Mãe! Meu Deus… Mãe! A Alice, Mãe… Meu Deus! Meus Deus! – Anny gritava – Ajuda ela, mãe!

A via bem abstrato. Estava mais desesperada que eu – será? Então Cássia apareceu. Queria por a mão em mim. Não! Não toque em mim!

Uma dor terrível. Que droga era aquela que acontecia?! Não podia mais andar. Num grito uma coisa saiu de dentro de mim, ali, no meio do corredor.

- Põe ela em algum lugar, menina! Olha ai! Pega o filhote, Anny!

- Meu Deus, mãe! Se eu pegar… se se eu pegar ele morre!

- Se você deixá-lo ai, é que ele morre!

- Pega você, mãe! Eu não to me sentindo bem… eu… eu…

- Ela que está parindo e você que desmaia, menina? Toma vergonha nessa tua cara!

Deixei tudo pra trás e corri até a cama minha e de Anny. Sentia que ali era um lugar seguro, que era o lugar apropriado para alguma coisa que eu ia descobrir.

Dor. Muita dor. E em cada dor, um trocinho saia de dentro de mim.

Eram meus filhos… seis deles.

Dormi um sono profundo.

Ainda estava assustada. Não sabia explicar o que tinha ocorrido. Então era assim que a galerinha ia sair? Santo Noé da arca dos bichinhos! Não havia maneira mais sutil? A gente segura os caras dentro da gente com maior cuidado, e quando eles decidem que é à hora de vir fazer peraltices, arregaça a gente toda pra sair? Tá louco!

Mas eram lindos… vou dizer a vocês, são as coisas mais lindas que já vi nessa minha vida felina. Eram quase todos iguais: ou eram brancos de manchas beges ou beges de manchas brancas. Três bobinhos as pontas das orelhas pretinhas. E todos, pareciam aquele que já não está entre nós – Amém!

Uns tinha os olhos cinzentos feitos do individuo que não pronuncio o nome, e de resto, amarelos e intensos feito da beldade que vos fala.

Tinha uma cabeçudinha que virou o dengo de Anny logo de inicio. Sophia, ela chamava a menininha. Mas dentre todos, tinha única diferente; era branca de manchas cinza. Não faço idéia d’onde a menina tirou aquelas manchas… mas era uma garota linda. Foi batizada de Delilah.

Todos vinham me ver. Aquele quarto encheu de gente que nunca vi na vida. Reconheci a irmã testuda de Anny, a Tatiane, e o anão que, se não me engano, era seu irmão, o folgado que sempre batia o pé pra mim, Danilo.

Mas ninguém chegava muito perto de mim. Anny não deixava de maneira alguma. A garota não saia de perto de mim e dos pivetes que comiam e dormiam o dia todo.

Nessa mesma tarde, comecei a sentir dores profundas e repentinas.

De novo, Noé?! Tá brincando comigo…

Diferente da primeira vez, esta foi rápida. Anny gritava feito retardada pela mãe. E um bixinho, iguais aos que estavam dormindo perto do meu colo, surgiu.

- Chegou atrasado, menino? – disse a ele.

O lambi. Não me importava se chegava por ultimo, o amaria da mesma forma ou até mais por ser o que queria curtir mais as aventuras dentro duma barriga. O lambi novamente. Ele não reagia… não abria os olhos… Não respirava. Olhei para Anny.

- Sinto muito… – disse minha dona, abaixando a cabeça.

Estava morto. Estava morto assim como o primeiro garotinho que surgiu no corredor, em meio a minha euforia e medo.

Dormi.

Ser mãe é o maior barato!

Nino fez uma festa com as crianças e eu aprendi, aos poucos, cuidar-lhes e amá-los. Até Natasha, a cachorra inútil, de vez enquanto pegava eles pra dar de mamar naquelas tetinhas murchas. Que é, meu bem? Leite em pó? Faça-me rir, né!

Sophia era a mais traquinas de todos. O “Miu” era o mimo de Cássia. Delilah, a prometida de Tatiane.

Mas, aos poucos, eles foram sumindo…

Até hoje, não compreendo o porquê de eles terem partido. Eu pensei que os filhos ficavam pra sempre com as mães, como a gente vê por ai ou até em alguns filmes. A mãe cuida dos filhos, eles crescem, se limpam sozinhos, têm seus próprios pivetes e cuidam de suas mães quando velhinhas. Mas não foi assim que funcionou, aqui, na casa 234.

Jamais me esquecerei deles. O calor dos teus corpinhos frágeis ainda se recria e se reinventa no meu colo e seio.

- Acho que é só você e eu agora, garotona… – disse Anny, passando a mão carinhosa por meus pêlos.

É… só você e eu, minha companheira da nossa pequena eternidade

Histórinha inspirada em fatos reais. 

Lady Alice em: Os Herdeiros (part. II)

-
Uma semana se passou e eu já estava me esquecendo do episódio de noites passadas. Estava tudo normal: Natasha, a cachorra gorda mórbida continuava gorda e mórbida, Nino permanecia tonto e minha dona a cada dia passa mais tempo na frente daquela tela junto duma coisa que ela fica apertando com a ponta dos dedos.
 Era um final de tarde quente e estava tudo lindo, florido, cheiroso. A casa estava calma e eu cochilava sobre o livro que Anny havia esquecido sobre a cama. Mas tinha uma atmosfera estranha pairando no ar… Sabe quando você sente que algo de ruim vai acontecer?
Ah! Deixa disso, Alice! Isso é coisa de humano pirado, gatos não sentem isso.
Mas um barulho se fez ouvir dentro do quarto. O que seria aquilo? Estava todos no andar de baixo, inclusive a cadela obesa. Deve ser psicológico – pensei.
Outro roído.
Não! Não era psicológico.
Olhei para a janela; estava aberta. E sobre o armário surgiram aqueles olhos azuis. Só houve tempo dos nossos corpos se chocarem e as unhas de ambos saltarem.
Era o maldito do Pirata!
- Eu disse que te pegaria, Alice! E agora você vai se arrepender de todas as vezes que me ofendeu e fugiu de mim!
- Me solta, Pirata, ou você vai se arrepender!
Era óbvio que eu estava blefando. Eu não fazia a mínima idéia do que fazer. Jurava meus bigodes que ele não voltaria, que aquele papo de “Eu te pego, Alice” era lenda. Quem me dera.
- Fique quietinha, Alice. Vai ser doloroso, mas rápido, eu prometo.
Não deu outra; meti as unhas na cara daquele pilantra.
- Maldita!!! – esbravejou.
Deu tempo de sair pela porta e, correndo em pânico, passar pelo corredor até perto da escada, mas me pegou novamente. Toda aquela adrenalina e medo me travavam e parecia uma retardada.
Ele cumpriu com o que dissera: ele me pegou. Foi rápido, da maneira como prometeu.
- Alice!
Ouvi a voz de Anny e vi a urgência dela, entre aquela afobação de tentar sair das garras daquele patife,  em subir as escadas e me socorrer.
- Solta ela, seu nojento!
E acertou suas costelas com a ponta daquele All Star remendado. Pirata saiu correndo atordoado cheio de medo e foi embora.
- O que ele fez com você, minha rainha? Fala comigo, Alice…
Eu não queria que ela me tocasse. Estava acuada no canto da parede, na defensiva, assustada, frágil e com medo.
Uma coisa pegajosa e vermelha escorria do meu rosto.
- Alice, seu rosto está sangrando? Meu Deus! Mãe está saindo sangue do rosto da Alice! Me ajuda!
Ela tentou por a mão em mim de novo. Neguei outra vez. Outra, outra e mais outra vez. Até que com insistência e amor, eu deixei que o colo dela me acalmasse. Toda aquela sensação estranha que eu sentia e não sabia o que era acabou virando só um detalhe.
E dormi.
- É minha culpa, Alice! A culpa é toda minha! Mande-me para a guilhotina, eu mereço!
Esse era Nino, no seu momento de dramaturgia grega.
- Eu deveria estar lá pra te proteger, é tudo culpa minha!
E o Oscar de maior gato dramático vai para…
- Arranque meus bigodes com uma pinça, Alice! Talvez eu me sinta menos culpado.
…Nino!!!
- Ah! Chega de asneira! Você está a quase uma hora se desculpando por nada.
- Como por nada, Alice?! Olha esse curativo da Hello Kitty na tua testa, eu deveria estar lá para te proteger.
- Nino!
- E se ele voltar?!
Era uma possibilidade distante pra mim, algo que não poderia tornar a acontecer e que eu preferia acreditar assim.
Estávamos sentados no telhado do vizinho e uma conversa na janela de casa me chamou atenção.
- Anny?
- Sim, mãe?
- Sabe aquele gato vagabundo que fez mal a Alice?
- O que tem aquele (adjetivo chulo censurado pela autora)?
- Morreu atropelado.
E um grito de “Aleluia!” ecoou no quarteirão.
- Você ouviu isso, Nino?!
- Que vai passar Os Batutinhas na Sessão da Tarde? Ouvi da TV do Seu Enersto. Isso não é novidade, passa todo mês…
- Não, cabeça de peixe. O Pirata morreu!
- Santo Noé da arca dos bixinhos! This is miracle!
- Isso merece uma festa! Hoje vamos para o apê do Algodão Doce e não saímos de lá até que um de nós dois caia embargo de leite fermentado.
- Leite fermentado? To dentro!
E foi festa a madrugada inteira. Tive de levar Nino nas costas de tão embriagado.
Desde então estava correndo tudo perfeitamente bem. Até que algumas semanas se passaram e um problema cresceu. Literalmente.
Cássia, a mãe de Anny, entrou no quarto enquanto eu tomava meu banho do fim das tardes.
- Anny, a Alice está grávida.
Epa! Que papo é esse, minha senhora?
- Claro que não, mãe! Ela só engordou alguns quilinhos – rebateu imediatamente minha dona, com a mesma feição incrédula que certamente eu carregava.
- Dá para ser um pouco menos ingênua? Veja só o tamanho da barriga dessa gata! Vai dizer que você não percebeu?
- Não que eu não tenha, mas… Ela não está preparada para enfrentar a maternidade! Ela é só uma criança!
Suspiros.
Tempos depois fui descobrir o que significava esse termo “estar grávida”. É quando um monte de bixinhos parecido com você cresce dentro da tua barriga, e uma hora eles têm de sair.
Até então tudo bem, achei o maior barato saber que tem um bocado de Alicinhas dentro de mim, se mexendo e interagindo umas com as outras. O que doeu foi saber a origem daquelas Alicinhas. Que Alicinhas como essas para serem feitas, era preciso uma gatinha e um gatinho.
E que aquele carnaval dentro da minha barriga, tinha sido promovido por Pirata.
Eu não estava livre dele; fazia parte de mim agora.
(Continua)

Lady Alice em: Os Herdeiros (part. I)

Ouvi arranhões na janela de metal. Acordei num susto; dormia entre as pernas de Anny naquele edredom com cheiro de flores, do qual eu tanto gostava. Tentei ignorar enfiando a cabeça sob as patas, mas o roído não parava e aquilo estava começando a me aborrecer.
Subi na cabeceira da cama sem acordá-la e, com os olhos estreitos, prestava o máximo de atenção.
- Quem está ai? – perguntei cautelosa.
- Sou eu, Alice!
Era um timbre familiar, mas eu sabia que não podia confiar nos meus sentidos, já que estava semi-acordada.
- “Eu” tem nome, meu bem!
- Nino! É o Nino! Abra logo, Alice! É difícil se equilibrar aqui!
- E quem me garante que é o Nino? Diz qual é a senha!
- Senha?! Que história é essa de senha, Alice?
- Sem senha, não abro a janela.
- Hã… Deixa-me ver… Pelúcias?
Abri a janela na hora. Era mesmo Nino, com cara de encafifado.
- Ué? Era mesmo essa a senha?
- Não existe senha alguma. Eu sabia que só você julgaria uma coisa tão idiota como uma – ri baixinho – Mas me diz, o que está acontecendo? Sabia que eu estava no meio de um sonho pra lá de legal?
- É que… É que tem um alguém querendo te ver e… Você tem de vir comigo agora mesmo.
Joguei-lhe um olhar estreito. Nino estava agindo de maneira muito estranha.
- Ih… Tem espinho nesse atum… Que está havendo, Nino? Quem está querendo me ver?
Nino parecia tenso. Acho que vi uma gota de suor escorrendo no teu rosto peludo. Eu só o via assim quando ele se sujava logo após chegar do petshop e sabia que levaria uma baita bronca de Daiane.
- Eu não posso dizer, Alice! Eu não posso dizer que o vira-lata do Pirata quer falar com você, porque ele não quer que você saiba e, caso souber, ele vai me enforcar com o esqueleto de um peixe!
Me espantei ao ouvir o teu nome. Um calafrio percorreu minha espinha, me custava lembrar toda maldade que esse tirano provocou.
- Pirata?! Ele ainda está vivo?
- Santo dos gatos! Soltei a informação!
- O que aquele zé ruelas quer comigo, Nino?
- Isso eu não sei, de verdade. Mas você precisa vir comigo. C’mom!
Olhei para a lua… estava linda aquela noite. Logo para dentro do quarto, naquela pequena abertura da janela e via o rosto adormecido de Anny.
Talvez fosse a ultima vez que a visse.
Mas eu, como uma gata temida e destemida, não corria fora assim não.
- Me leve até ele.
Pirata estava me esperando na saída da viela. Eu já sabia disso mesmo antes de chegar, o fato é que o cheiro horrível dele acusava sua presença a quilômetros de distancia.
Aquele sujeito não prestava. Aterrorizava a vida de todos os gatos do Campanário e fora dele. Nino é exemplo de toda a bullying que Pirata foi capaz de praticar contra ele e o quão fez esse pobre gato ficar complexado devido sua patinha torta.
Assim que cheguei, seu olho brilhou (pois um era de vidro e eternamente brilhava) de malícia e fez uma breve reverencia.
- Milady… Quanto tempo!
Ele continuava a mesma desgraça de sempre: Tinha os pelos encardidos, mas toda aquela sujeira quebrava em teu olho azul frio e profundo. Patas machucadas, bigodes cortados e cicatriz na costela. Era assustador.
Todavia, não me punha medo.
- Oi – respondi sua saudação, seca.
- Bom trabalho, Nino. Agora pode dar um fora.
- Eu fico!
Nino protestou, mesmo aparentemente estar morrendo de medo daquele vagabundo.
- Fica sossegado, Nino. Pode ir – Amaciei o camarada.
- Ma-ma-mas Alice…
- Faz o que ela disse, seu mauricinho – disse Pirata, de saco cheio.
E Nino se foi.
Confesso que sem a presença dele, eu ficava um pouco desconfortável. Mesmo  que, na maior parte do tempo, ele somente atrapalhe.
- Só nós dois, milady… – Pirata pôs a língua pra fora – Sentiu saudades?
Deu um passo a frente, mas logo recuei.
- Pensei que você estivesse morto.
- Esqueceu que nós temos sete vidas?
Ele balançou a cauda de um lado para o outro. Aquilo já estava me pondo medo.
- Pra que voltou, afinal? Te expulsaram da onde você estava?
- Voltei por você, Lady Alice. Não podia ir mais longe sem antes… te possuir.
- Cara, por que não vai ver se eu estou fazendo intercâmbio lá na Babilônia? Sai do meu pé!
Dei as costas para ele e pretendia voltar para casa. Aquele retardado só tomava meu tempo.
Mas um golpe pelas costas me fez cair e quando dei por mim, ele tinha imobilizado meu corpo.
Regra #1: Nunca dê as costas para um inimigo.
Mas eu sempre me esqueço disso!
- Continua atrevida e petulante… Do jeitinho que eu gosto…
- Me solta, sua flanela de mecânico!
- É melhor ficar quietinha, Alice. Não é hora de me provocar.
- Por que acha que eu me envolveria com um andarilho que mora dentro de pneu feito você? Cai fora, crioulo!
Senti sua pata afundando em meu pescoço. Já estava ficando difícil respirar. Nenhuma alma samaritana passava naquele instante perto da cena do atentado, nem mesmo Nino, o gato atrapalhão, que costuma chegar sempre quando a coisa ficava preta pro meu lado.
- Já disse para me soltar!
E desferi uma joelhada entre suas pernas. O babaca caiu na hora a se contorcer.
Regra #2: Quando seu inimigo é um macho, sempre apele para as partes baixas.
Era a hora da fuga. Levantei e corri como se não houvesse amanhã.
- Eu vou te pegar, Alice! Não importa onde estiver!
Aquele miado que ecoou entre a ruazinha que dava até em casa só me fez correr mais rápido, e em segundos já estava arranhando a janela. Aquela sensação de que ele chegaria a qualquer instante e me atacaria pelas costas quase me fez cair dura no chão.
- De novo, Alice?
Reclamou Anny, preguiçosa, sem mesmo se dar ao trabalho de abrir os olhos.
Mal ela entreabriu a janela e eu já estava dentro do quarto. Nunca fiquei tão feliz de ouvir aquela voz rouca de quem acabará de acordar derramando sermão.
Aquela noite eu não sairia de perto dela por nada.
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Fim da primeira parte.
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Escrito em: 7, Agosto de 2011.

Lady Alice em: Os donos da área.

Meia noite, a janela está fechada. Anny tem mania de fechá-la para que eu não saia (e também acredita que algum ser sobrenatural vá entrar por ela), mas esquece sempre da janela do quarto de costura da sua mãe ou da lavanderia entreaberta. Verifico se ela está dormindo, e fujo por uma fresta da janela de metal do outro quarto até o telhado. Encontro Nino, o siamês das filhas do Seu Valdemar, o vizinho. Ele sempre costuma passear esse horário.
Nino já foi apaixonado por mim, mas deixei bem claro que não sou tipo de gata que se apaixona por qualquer um. Aliás, fui ainda mais especifica; não me apaixono por ninguém.
Mas confesso que seus olhos azuis me atraem.
- Oi, Nino. Observando a lua? – disse eu, enroscando meu rabo comprido em sua pata traseira.
- Alice! Que bom que apareceu.
- O que houve?
- Estou me sentindo sozinho…
- Não seja patético, Nino. Tem de ser mais viril, assim como os cães.
- Sabe como é… As noites são perigosas… – murmurou, se comprimindo até ficar parecido com uma rosa que se esqueceu de desabrochar.
- Gatos de raça são mesmo uns medrosos!
Ouvia-se um miado doloroso nas ruas de baixo. Era típico algum gato em apuros nessas redondezas onde tinham tantos cachorros de ruas ou gatos malandros que adoravam botar medo nos que tinham um dono.
- Ei, Nino. Ouviu isso? Vamos lá ver!
- Perdeu o juízo?!
- Deixa de ser medroso!
Descemos pela escadaria. Nino tinha os pêlos da cauda eriçados de tanto medo. Segui em frente para protegê-lo, passamos por uma ruazinha escura até a outra quadra. Estava deserta. Afinal, já era de madrugada e a rua tinha pouca iluminação. Na verdade tinha apenas um poste de luz ligado, alaranjada e bastante funebre. Aquela luz fosca iluminava a entrada de um beco. Fora de lá que veio o barulho – é de lá que vem todos os barulhos. Fomos vasculhar o lugar (com muita relutância de Nino). Logo no início tinha um gato cinza, magricela, os olhos verdes – um deles tinha uma cicatriz.
Cheguei logo peitando, comigo não há rodeios. Aquele gato tinha cara de relaxado, e não devia agüentar brigar com um sabiá.
- Que ta pegando, chefia?
Usei meu vocabulário de “maloqueiro”. Aprendi em uma das conversas de Anny. Ela disse que os malandros da rua falam assim, e que tínhamos de usar essa linguagem para se comunicar com eles, caso contrario, não compreendiam.
Aquele gato metido me estudou por uns longos dez segundos. Pra ser sincera eu senti uma ponta de arrependimento pela malandreza súbita da minha parte.
- E quem vocês pensam que são? – disse o zé ruelas, cuspindo no chão.
- Olha, somos perigosos, ta bom? – Nino falava enquanto se escondia atrás de mim.
- E é? Gatos com coleira não são perigosos.
- Como se vocês manés, magricelas e metidos a gângster valessem algo.
Falei com naturalidade. Dizia a verdade bem como respirava. Mas eu sabia que ali tinha assinado o contrato de por o meu pescoço a forca.
O “cinzinha” grunhiu. Vinha em nossa direção.
- Olha o que você fez, Alice!
Sussurrou Nino. Capaz de seus pêlos estarem caindo de tanto medo.
- Ora, ora, ora… Veja se não é Lady Alice.
E surgiu do fundo do beco um gato branco, peludo, com o focinho pra dentro bem achatado, e ao contrário do resto, não era magro e raquítico. Era manco. Pimpão é seu nome.
- É um prazer vê-lo, Pimpão. – Dei as boas-vindas.
- Acalme-se, Alex.
O gato cinza recuava. Era um bobão, não agüentaria dez minutos de pancada comigo, tenho certeza.
- É, acalme-se, Alex. – Provocou Nino.
- Vejo que está acompanhada…
- É, esse é o Nino, gato do vizinho.
- Prazer, Nino.
- Oi…
Nino era mesmo um babaca. Não podia demonstrar medo, mas acho que essa palavra estava tatuada na sua testa.
- Bem, o que devo a honra da sua presença por aqui, Lady?
- Sabe qual é, Pimpão? Nino e eu estávamos numa partida importante de xadrez, e um barulho muito alto nos atrapalhou, e veio daqui. Daí viemos pedir para que fizessem menos barulho.
- Perdoe-nos, Lady. Penso que exageramos na festinha.
- Festinha?! Tem ração com naguetes? – Disse Nino.
Mas era mesmo um paspalho esse gato!
- Talvez vocês queiram entrar para ver…
- É muita gentileza sua, Pimpão. Mas Nino e eu ainda temos que terminar aquela partida de xadrez, não é, Nino?
- Ora, vamos entrar um pouquinho, Alice. Estou faminto.
- Você ficou idiota?! – sussurrei entre os dentes, incrédula com a concordância do infeliz.
- Entrem, entrem. Será um prazer recebê-los…
Gato tinhoso! Vai é fazer picadinho da gente. Nino era mesmo um mané, sempre batendo bola fora.
Dois gatos pretos se aproximaram. Não adiantava recuar. Seguraram-nos e arrastaram-nos até o fim do beco. Nino, como esperado, gritava feito louco por socorro. Lá tinha dois gatos siameses presos contra a parede pelas patas com esqueletos de sardinhas. Clichê.
- Temos mais convidados.
- Me soltem, seus fanfarrões! Deixa só a sociedade ser adepta a escravidão a gatos pretos e vocês vão ver o que é bom pra toce!
- Cale-se, sua mimada! – Gritou Pimpão. – Já te suportamos demais. Perambula por ai, achando que é alguém de classe, achando que tem poder. Quem manda nessas regiões somos nós!
A turma dos gatos vagabundos miou em concordância.
- Pegamos esses siameses andando por nossas áreas. – Disse o gato cinza da entrada.
- Vocês são uns armadores. Duvido encararem a turma do Pelé no centro de Diadema. Aqueles são malandros de verdades. Não são como vocês, comedores de lixo e andarilhos lambedores de poça!
- Alice, você bem que poderia ficar quietinha… – Comentou Nino, tremendo as patas.
- Basta! Você fala demais, gata atrevida!
- Soltem Nino e eu se não vocês vão ver só!
- Rapazes, arranquem-na os bigodes, para que fique quieta.
Estava na hora. Eles me subestimavam muito. Apliquei meus golpes de karate nos dois gatos pretos que seguravam a mim e Nino. Caíram em locaute.
- Peguem-na!
E saiu gato de tudo quanto é lado! Do céu, do asfalto, de trás das estrelas.
Não importava, não eram páreos para mim. Bastou um golpe de “garras coletiva” e metade foi eliminado. Foi possível ver apenas rabo de nego pra lá, pata de sicrano pra cá. Meia dúzia veio em nossa direção. Invoquei meus poderes ocultos, dizendo “miau” ao contrario três vezes, um circulo de fogo se fez ao redor de mim e Nino. Foi feito churrasco de gato da forma mais literal possível. Tinha mal passado, bem passado e torresmo.
Três foram atrás de Nino, que gritava feito louco.
- Aliceeeee!
- Não tenha pânico, Nino!
Foram pegos pelo rabo. Girei todos no ar, e os lancei tão alto, que é capaz terem caído na Praça do Jardim Miriam.
- Ahá!
- Atrás de você, Alice! – Gritou Nino.
Era uma maçã podre. Acertou minha cabeça em cheio e cai zonza. Era o chefão, Pimpão. Havia me esquecido dele. Arrastou-me pelas patas traseiras até o fim do beco.
- Achou que iria escapar, Alice? Vingarei-me de você.
- Me solta, perneta!
- Atrevida!
Suas garras enormes se revelaram. Juro que me arrepiei até onde não se é possível arrepiar no corpo de um gato. Eram enormes! Estava acabada.
Eis que surge Nino, o gato louco!
- Yaaaaaaaaaa!
Foi preciso apenas uma chave de perna no pescoço gordo de Pimpão, e o gato branco caiu desmaiado. Tinha incorporado o Jack Chan encapetado em Nino!
- Caramba, Nino! Não conhecia esse teu lado “Ninja Assassino”.
- Me empolguei com a temática do momento.
- Ei! Ajudem-nos!
Eram os gatos presos na parede. Estavam todos muito machucados. Soltamos os dois.
- Pobres gatinhos… – disse Nino num tom cheio de compaixão.
- Vocês nos salvaram! Como podemos agradecer?
Os olhos dos gatinhos brilhavam. Disse a eles que bastava deixar um bocado de saches de frango na minha janela que ficávamos quites.

Nino e eu voltamos até o escadão.
- Só você para nos enfiar em uma dessas, Alice.
- Relaxa, Nino. Te pago uma tigela de leite e você fica bem de novo.
- Boa noite, maluca!
E se mandou pra sua casa.

De volta ao telhado, pulei até a janela do quarto. Estava fechada. Bati nela. Arranhei. Miei.
No silêncio da noite, pude ouvir, mesmo de fora, o som da cama rangendo, o peso de um pé pisando o chão, resmungos e a janela abriu.
- Isso é hora de chegar, Alice? – Protestou Anny. Parecia uma louca com os cabelos desgrenhados e a cara amassada.
Olhei para ela como quem não sabia de nada e entrei.
- Vamos rever esses seus horários mais tarde.
Mieiem protesto. Elaquer que eu viva aqui nesse quarto, com essa cachorra chata e sedentária? Mas nunca!
Ela voltou para cama, e me aconcheguei ao seu lado.
Foi uma noite agitada e cansativa.

Escrito em: 17, Dezembro de 2010. 

Áudio: Don’t Stop, de The Rolling Stones

Quem é Lady Alice?

Lady Alice, Alicia, Lila ou Meu Amor, mas prefere Vossa Realeza.

Não é sono, é ostracismo

Há quatro anos nasceu na cidade de Diadema (São Paulo) uma gata que pensa ser Rainha, e no que antes era feita de uma demasiada candura, cresceu malandra e perito na arte da persuasão.

Alice, sobretudo, é uma excelente companheira e ótima ouvinte. Com pouco ela consegue mandar pra bem longe os dissabores da vida e ajuda-lhe a criar novas expectativas e sonhos. É a gata mais humana jamais vista.

Destemida e temida, desbrava aventuras neste mundo e nos mundos que ninguém vê, onde ela é conhecida pela fama de espantar e lutar com os inimigos, espíritos e monstros mais perigosos, ou simplesmente se enfiar numa boa confusão com a ajuda do seu fiel amigo Nino, numa quimera inusitada e instigante.

Deixe toda sua sutileza e realeza conduzi-lo com a valsa, interaja, anime-se e dê risadas com Alice…

Pois afinal, a curiosidade nunca matou o gato.

Sobre os contos:

A ideia surgiu numa madrugada quando Alice saia pela janela e Anny, enquanto a esperava retornar, imaginou N coisas a respeito das saídas da gata na calada da noite. De imediato, abriu o Google Docs e iniciou uma escrita louca sobre uma suposta aventura que a felina estaria vivendo naquele dia. Essa noite em questão, foi o impulso para que várias historinhas fossem criadas e então, publicadas num blog para uma leitura rápida e descontraída, com contos objetivos sem rasgar seda, aos amigos mais íntimos. Mas Alice tem adquirido, de pouco a pouco, um público (por mais que pequeno) de pessoas que se encantam e gostam da personalidade aventureira e malandra que Anny criou para sua gata.

De início, Anny escrevia somente para guardar pra si todo o carinho pela mascote. Contudo, passou a escrever esses devaneios para que fossem lidos aos seus sobrinhos, ou para que somente entendessem o quão diferente Lady Alice é dos de mais gatos. Todo o cenário é verdadeiro, desde o amigo de Alice (o gato medroso, Nino), a cachorra Natasha e o restantes dos personagens. Até as referencias de lugares citados como os bairros de São Paulo e o nome dos vizinhos do qual convive.

O blog é feito somente para armazenar essas – por que não dizer – recordações da gata do qual a dona sustenta um amor platônico. Para afirmar com punho erguido que os animais são muito mais do que brinquedos que não sentem, pensam ou não tem emoções. Mas, sobretudo, conquistar, nem se for um pequenino fragmento, do coração de quem ler e conhecer a vossa realeza, Lady Alice.

Por fim, uma música que Milady aprecia deveras, e gostaria de compartilhar com vocês: Rain, de Mika