Leia antes: Lady Alice em: Os Herdeiros (part. II)
O tempo não perdoava.
Quanto mais noites passavam, as Alicinhas cresciam e se mexiam mais dentro de mim. Foi quando eu decidi que não dormiria mais, ai os dias não iriam escurecer e, então, nunca mais nasceria outro dia e meu bucho não cresceria mais. Mas imagine só o marasmo! Haja poker, haja novelos de lã e meias sujas que preencha o tédio.
Naturalmente, o plano não deu certo.
Minha barriga parecia uma escola de samba. Nino chamava de “Unidos da Lady Alice”. Hilário esse menino!
Ele, por sua vez, estava achando a experiência fascinante – talvez até mais do que a mim.
De inicio, esse papo de ter um monte de pivetinho correndo pelo quarto, sobretudo de ter que olhar para miniaturas daquele infame que, num ato inescrupuloso, deixou pra mim essa bagagem, me dava enjôo e um sentimento repulsivo. Mas disseram que o enjôo era coisa de grávida mesmo, e que toda essa minha vontade louca de comer um monte de coisa, é pelo time de vôlei que estava crescendo em mim.
Coitado de Nino! Sempre sobrava pra ele. Ia buscar, de madrugada, na geladeira de Dona Irá, o filé que eu estava com vontade de comer. Ele dizia ser o “pai postiço” dos que estavam por vim.
Com cara de quem não estava acreditando no que ouvia, disse:
- Está ficando retardado?!
- Ma-ma-mas Alice – retrucou Nino – eles precisam de um daddy!
- Ta de sacanagem? Precisam coisa nenhuma! Fique satisfeito sendo o tio dos mancebinhos.
Nino tinha cada idéia de jerico! A gente nasce e paga imposto pra ouvir cada coisa, senhoras e senhores.
Quanto a Anny, me tratava com todo esmero e apreço. Nas vezes que eu saia, ouvia a voz dela pela janela e sabia que o bicho ia pegar pro meu lado.
- Você tem o que na cabeça, Alice? Atum? – dizia ela, furiosa – Você está grávida, não pode sair por ai para as suas baladinhas como quando não tinha “coisinhas” ai dentro!
Foi quando descobri que ser mãe custava muito. Já pensou? Ter que ficar em casa porque tem um monte de bichinho dentro de você? Nada a ver! Eles iam se divertir também, ué! Posso apostar que todas as vezes que eu pulava um muro, eles estavam rindo e sentiam a mesma adrenalina no estomago que eu sinto.
Até que chegou um momento que começava a custar escalar parede. Eu estava oficialmente mórbida, e não agüentava correr atrás d’uma aranha.
Decidi aposentar meu reinado por uns tempos. Licença materna, disse Anny.
Ah! E Natasha, a cachorra preguiçosa e obesa, também me felicitou pelas boas novas.
- Engoliu teu ego, Alice? Por isso da barriga enorme?
E ria. Onde já se viu? Que cadela ousada!
- Volta pra tua toca, peruca de político! – gritei a ela.
O sol que entrava pela janela fazia um retângulo de raios suaves no chão do quarto. Deitada sob aquela luz de fim de tarde, com a maior majestade deste mundo, eu começava a me perguntar como aquela galera faria para sair daqui de dentro.
Eu não fazia idéia! E com tanto devaneio tentando com a minha criatividade infinita imaginar, o dia escureceu. Anny chegou e deitou-se a cama depois de me paparicar deveras. Postei-me em meu lugar de costume: ao lado do travesseiro, bem próximo de seu rosto sonolento.
Adormeci ao som da tua respiração calma.
Investida, dor, sangue.
Dor, muita dor… Que estava acontecendo?! O quarto estava tão escuro…
Cai da cama, desnorteada, tonta, confusa.
Anny?! Onde ela estava? Tua respiração calma… – Que dor! – ela estava dormindo.
Era impossível de andar; arrastava-me em buscar dum lugar seguro. Eu não sabia por que queria, mas sabia que tinha de ser e eu andava e andava pelos corredores gritando e gritando, a visão embaçada, a dor torcendo tudo dentro de mim.
- Mãe! Mãe! Meu Deus… Mãe! A Alice, Mãe… Meu Deus! Meus Deus! – Anny gritava – Ajuda ela, mãe!
A via bem abstrato. Estava mais desesperada que eu – será? Então Cássia apareceu. Queria por a mão em mim. Não! Não toque em mim!
Uma dor terrível. Que droga era aquela que acontecia?! Não podia mais andar. Num grito uma coisa saiu de dentro de mim, ali, no meio do corredor.
- Põe ela em algum lugar, menina! Olha ai! Pega o filhote, Anny!
- Meu Deus, mãe! Se eu pegar… se se eu pegar ele morre!
- Se você deixá-lo ai, é que ele morre!
- Pega você, mãe! Eu não to me sentindo bem… eu… eu…
- Ela que está parindo e você que desmaia, menina? Toma vergonha nessa tua cara!
Deixei tudo pra trás e corri até a cama minha e de Anny. Sentia que ali era um lugar seguro, que era o lugar apropriado para alguma coisa que eu ia descobrir.
Dor. Muita dor. E em cada dor, um trocinho saia de dentro de mim.
Eram meus filhos… seis deles.
Dormi um sono profundo.
Ainda estava assustada. Não sabia explicar o que tinha ocorrido. Então era assim que a galerinha ia sair? Santo Noé da arca dos bichinhos! Não havia maneira mais sutil? A gente segura os caras dentro da gente com maior cuidado, e quando eles decidem que é à hora de vir fazer peraltices, arregaça a gente toda pra sair? Tá louco!
Mas eram lindos… vou dizer a vocês, são as coisas mais lindas que já vi nessa minha vida felina. Eram quase todos iguais: ou eram brancos de manchas beges ou beges de manchas brancas. Três bobinhos as pontas das orelhas pretinhas. E todos, pareciam aquele que já não está entre nós – Amém!
Uns tinha os olhos cinzentos feitos do individuo que não pronuncio o nome, e de resto, amarelos e intensos feito da beldade que vos fala.
Tinha uma cabeçudinha que virou o dengo de Anny logo de inicio. Sophia, ela chamava a menininha. Mas dentre todos, tinha única diferente; era branca de manchas cinza. Não faço idéia d’onde a menina tirou aquelas manchas… mas era uma garota linda. Foi batizada de Delilah.
Todos vinham me ver. Aquele quarto encheu de gente que nunca vi na vida. Reconheci a irmã testuda de Anny, a Tatiane, e o anão que, se não me engano, era seu irmão, o folgado que sempre batia o pé pra mim, Danilo.
Mas ninguém chegava muito perto de mim. Anny não deixava de maneira alguma. A garota não saia de perto de mim e dos pivetes que comiam e dormiam o dia todo.
Nessa mesma tarde, comecei a sentir dores profundas e repentinas.
De novo, Noé?! Tá brincando comigo…
Diferente da primeira vez, esta foi rápida. Anny gritava feito retardada pela mãe. E um bixinho, iguais aos que estavam dormindo perto do meu colo, surgiu.
- Chegou atrasado, menino? – disse a ele.
O lambi. Não me importava se chegava por ultimo, o amaria da mesma forma ou até mais por ser o que queria curtir mais as aventuras dentro duma barriga. O lambi novamente. Ele não reagia… não abria os olhos… Não respirava. Olhei para Anny.
- Sinto muito… – disse minha dona, abaixando a cabeça.
Estava morto. Estava morto assim como o primeiro garotinho que surgiu no corredor, em meio a minha euforia e medo.
Dormi.
Ser mãe é o maior barato!
Nino fez uma festa com as crianças e eu aprendi, aos poucos, cuidar-lhes e amá-los. Até Natasha, a cachorra inútil, de vez enquanto pegava eles pra dar de mamar naquelas tetinhas murchas. Que é, meu bem? Leite em pó? Faça-me rir, né!
Sophia era a mais traquinas de todos. O “Miu” era o mimo de Cássia. Delilah, a prometida de Tatiane.
Mas, aos poucos, eles foram sumindo…
Até hoje, não compreendo o porquê de eles terem partido. Eu pensei que os filhos ficavam pra sempre com as mães, como a gente vê por ai ou até em alguns filmes. A mãe cuida dos filhos, eles crescem, se limpam sozinhos, têm seus próprios pivetes e cuidam de suas mães quando velhinhas. Mas não foi assim que funcionou, aqui, na casa 234.
Jamais me esquecerei deles. O calor dos teus corpinhos frágeis ainda se recria e se reinventa no meu colo e seio.
- Acho que é só você e eu agora, garotona… – disse Anny, passando a mão carinhosa por meus pêlos.
É… só você e eu, minha companheira da nossa pequena eternidade

Histórinha inspirada em fatos reais.